sábado, 4 de agosto de 2012

Qualquer desabafo pra você

Perdi, dessa vez eu tô fora. Perdi alguém que compartilhava do meu gosto estranho por programas culinários, das músicas de pagodes, das músicas bregas. Pra tentar ser honesta resolvi começar assim, por um texto honesto. Sem muitas figuras de linguagem, ou qualquer eu-lírico que não seja eu mesma, vou deixar à margem inclusive qualquer erro de concordância. Quantas vezes no planeta você conhece uma pessoa assim, que entende que ser mundano é bom, mas nem tanto; que ser triste é vital, mas que uma piada sem graça também pode mudar tudo; que gosta de arte, de poesia, até da sua ironia.. Em que nossos hábitos se tornaram apenas.. nossos hábitos.. Ver um filme, pausa pra água, volta ao filme, pausa pro cigarro, pausa pra rir, pausa pro sexo, hora de comer e depois dormir (ou o contrário).. Imagina o que é fazer sexo com o seu melhor amigo? Eu pude imaginar como é isso. E a gente tinha chegado no status de ''paz", sabe como é? Quando se está com uma pessoa sem a menor preocupação de silêncio incômodo ou qualquer coisa do tipo, parecido como quando se está com familiares só que melhor. E você entendia tudo isso da maneira certa. Putz.. pensa que não sei que posso ter perdido esse tal de "grande amor"? Uma pessoa que eu até aguentaria por muitos e muitos anos, só pelo fato de estar tranquila do lado? É, eu sei.. Nem precisa ficar botando músicas sertanejas pra dizer que tá bem.. Pensa que não me arrependo tremendamente por ter sido tão frágil à ouvidos alheios? Que porra nenhuma sabiam do que se passava por aqui.. Mas a intenção não é provocar nada, mesmo. Até porque acho que as coisas estão onde elas deveriam estar agora. Tinha supervalorização demais por todos os cantos, cantos que nós nem tivemos tempo de partilhar direito.. Tem mentira, traição, e muita mágoa, dos dois lados eu quero dizer. A distância nos privou do fato em si, e deixou apenas essa paz incompensável que a gente tinha. Acho que adoecemos demais com isso também. Pensei um milhão de vezes em te procurar, ao invés de ser covarde e escrever sobre isso depois, pra te pedir desculpas por não ser a pessoa que você merecia. Mas não consegui.. Por todo esse tempo eu tentei te reproduzir em qualquer pessoa, se não era igual a você não servia, e doeu demais descobrir que não era. Descobri que eu precisava mesmo era de um tempo só, de alguém que não fosse uma tentativa minha da sua projeção.. E por mais que me passem pensamentos como, "não, não tem nada haver, é tosco, é absurdo.." é diferente de você. Engraçado porque, isso agora me soa bem entende? Com o resto do mundo não é assim? Quem sabe eu possa criar um novo hábito ou aprenda a gostar de qualquer outro gênero musical.. quem sabe, quem sabe.. Pessoas reais, com expectativas e defeitos reais, nem todas as afinidades do mundo, mas.. Sim, sim, eu perdi demais ao perder você, talvez uma perda irreparável, muito do que eu sou é seu e você sabe disso.. Mas olha, o que a gente pode ganhar a partir daqui quem vai saber? Há sempre mil coisas para amar, gostar, desejar.. E outras mil para aprender.. É estranho ser livre agora.. E nada, nada do que vivemos está perdido, nem o amor. Um sentimento nunca é o mesmo, assim como as estrelas.. Começo a pensar agora que a vida sempre pode reinventar novos caminhos, e não vou dizer que não estou gostando de tentar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Por Stromboli


                                                              ''..Se você tá procurando amor
                                                                 Deixe a gratidão de lado:
                                                                 O que que amor tem que ver
                                                                 Com gratidão, menino,
                                                                 Que bobagem é essa?..''
                                                                 Tom zé

''Não tenho mais o que pensar!
Seus olhos são apenas buracos negros
que me vazam e eu não me dizem nada..

Além do meu corpo que muito pesa,
carrego comigo a sensação de estar um tanto só,
pra sempre.

O problema é que eu não consigo me completar em qualquer coisa,
nessas distrações banais.
É preciso ser triste pra ser feliz.
E você podia entender isso da maneira correta.
Não tem nada haver com o bem e o mal.

É só eu, você e esse mundo.
Seu mundo!
Meu mundo!
E não é a mesma coisa..
E você podia entender isso da maneira correta.
Não tem muito a ver com verdade ou mentira.

Somos apenas mais dois,
com feridas abertas que sangram.
E isso não é ser especial..
E você podia entender isso da maneira correta.
Não é caso de ser feliz ou triste.''


Pedro Britto

terça-feira, 24 de julho de 2012

"Eu tinha um monte de coisas pra te falar sobre a solidão. Ia te dizer que ela pode ser uma escolha e que a gente se esconde por trás dela por medo de se machucar. E nos escondemos tanto que desaparecemos feito aquele abajur velho que fica ali a vida inteira e que acendemos uma vez por ano. Aí ia te dizer, com um sorriso amarelo, que a gente vira um camaleão que onde quer que vá se confunde com o ambiente, se confunde com a cadeira, com a mesa, com a bebida, e que esses bares serão comuns. Nos tornando ninguém todo mundo também deixa de existir, porque alguém disse que só existimos em relação ao outro. Transformamos todo mundo em ninguém, e eu que te procurei pra te dizer tudo isso já não existo mais."


Pedro Britto

ps.: as vezes vc me deixa sem palavras, como nesse texto.. =)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Qualquer rascunho de papel amassado..

Sobrevivemos de ausências
Formatamos palavras com excelência
Vestimos roupas para dizer do tal que somos..
E eu preciso tanto dessas reticências
E esses teus homens nunca saberão
E ninguém nunca conseguirá falar,
tudo o que realmente precisa dizer
Mas me diga de uma vez então,
pois eu já percebi tudo:
O que você ama mesmo é o que lhe falta
De nada adianta continuar tentando ter a vida nas mãos..

sexta-feira, 6 de julho de 2012


Já posso ser covarde?
Posso encher a cara e a alma? (por favor por favor)
Meus olhos estão um pouco fundos nesse momento pra servirem de espelho
Minha alma está um pouco vazia pra ser recipiente de flores
Meu corpo está um pouco contaminado pra entrar algum feixe de luz
Estou um pouco cinza para ser feliz
Por isso não me peça pra salvar ninguém
Nem pra ser amor nem vida
porque eu estou em decomposição por dentro..
É, eu já estou um pouco morto por dentro
E aí se puder não me entenda mal, nem leve pro pessoal
Minha falta de jeito, essa maneira crua de bater com as coisas
É que também está um pouco árido aqui
E quase nunca pedi nada,
também foram poucas as vezes que me viu chorar
Mas num instante,
se puder me ausentar desse jogo de bom e mau,
vilão e mocinha, é tudo que eu poderia pedir
Não há nenhuma elevação espiritual por aqui
Deixa pra lá
Esquece toda essa baboseira dramática,
amanhã estou de pé, com a mesma cara amarela de antes,
e juro que ninguém vai reparar
Levando comigo na velha mochila todos os meus demônios dentro
E tudo vai passar, inclusive meu coração
O hoje já era

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O menino que não era de papel



Pedro era uma daquelas crianças geniais, sabe como é? Daquelas arrogantes por serem tão inteligentes? Pois é.. Desprezava a lição de casa, caçoava de todas as professoras e pior, tinha a mania de puxar o cabelo ou de dar uma pedrada na cabeça de todas as meninas que gostava. Sua cara nunca mudava também, desde que tinha 8 anos sua feição tinha se paralisado, sua mãe diz que foi choque térmico. O que não soube-se mais, era se Pedro realmente gostava dos filmes que assistia, do Mousse de Maracujá de sua avó, ou o que achava de ir a igreja. Pedro quase nunca falava, com o rosto paralisado então, mais difícil ainda de descobrir. Mas há algo interessante sobre Pedro que eu não contei, uma vez ou outra ele sentia dor, solidão, frio, sim, raríssimas vezes ele também experimentava esses sentimentos. Na primeira vez que aconteceu foi assim, seu gato de estimação adorado e grande companheiro fora atropelado na rua, Pedro saiu correndo ao ouvir a confusão, e que confusão ao ver.. Ele então sentou-se no chão, tudo era tripa, sangue, marcas de sangue, gato, marcas de gato. Sem querer, sim, sem querer, porque ele jamais iria se permitir a essas ousadias em sã consciência, caiu uma lágrima de seus olhos, de seus olhos crús, de seus olhos maus. E dessa lágrima, acreditem ou não, mas juro que foi exatamente assim que aconteceu, aquela composição de água e cloreto de sódio solidificou-se em uma pedrinha de ouro brilhante e dourada. Pedro levou um susto, se constrangeu, até incomodou-se, o que era aquilo? Que raios de criança era ele? Mas o pior de tudo pra ele foi ter chorado, aquela vergonha era incompensável.. Como ele, logo ele, pudera se dar ao papel de chorar, que vergonha.. Aquela lagriminha dourada nunca ia ser vista por ninguém, assim decidiu. Saiu correndo pra casa como se tivesse cagado nas calças de tamanho o desespero. E começou assim a história daquela incrível e solitária criança. Mas não se engane, Pedro não era daquele tipo esquizóide que se destaca na multidão não, ele se passava por normal, isto é, namorava, alguns amigos, nada muito íntimo é claro, e a única regra é que ele não poderia se deixar comover e nem deixar a bendita da lágrima escapar também. Se a coisa começasse a apertar, se sentisse seus olhos ardendo, Puff, ele já estava correndo para pegar seu frasquinho com suas 4 lágrimas de ouro, agora 5. Ora ou outra acontecia um desses milágres, como acontece na vida sabe? Pedro trabalhou, namorou, parou de trabalhar, fez sexo, arrumou um novo hobbie, arrumou um novo vício, largou o cigarro, começou com o charuto, fez sexo novamente, largou o charuto, deixou a igreja e trocou os amigos. Sem nunca dividir as tais lágrimas, nem nada perto disso. Quanta mesquinharia ein menino.. Quem sabe tivesse ido parar no Guinness, ficado milionário, ou apenas arrumado alguém legal pra ver tv em uma sexta-feira tediosa. Mas ele não conseguiu, e ele mesmo fez questão de me corrigir, que não era por maldade não, era mais falta de jeito mesmo. Um pouco de orgulho, um pouco de medo.. Quem sabe foram os efeitos colaterais de seu rosto paralisado. Pedro morreu aos 60 anos com 80 pedrinhas de ouro. É óbvio que precisou de um novo frasco. É que andava meio sentimental em seus últimos meses. Ninguém nunca soube. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Samba da separação


Pegue suas roupas e retire tudo que é seu daqui,
pode levar..
Tire aquela camisa velha que eu usava de pijama,
e leve junto todo aquele sentimento que vinha com você
Chega, e chega sem querer
Vá saindo, 
da minha vida, do meu corpo e das minhas ilusões
Ahhh... das minhas ilusões
Vá arrumar confusão em outro coração...
outro bobo pra servir de sua nova paixão,
alguém pra você usar de remendo
Chega
 E todo mundo já tinha me avisado que não ia dar em nada,
que você é caso perdido, papel amassado
Mas eu pensei, 
bem sei lá, as vezes o acaso ou qualquer outra força ia juntar os nós
e bem, bem você também não fez
Sei que você podia ficar,
e eu sei, é, eu também sei que eu poderia aguentar
por dias, meses a até anos quem sabe,
a gente brincando de amar, odiar,
enrolando perna com perna,
peito com abdômen, num jogo sem fim,
só pra ver sair fogo do atrito
E eu sempre assim, tão crua, tão sua,
ainda parada na espera da espera
Mas não, vá fazer seu carnaval em outro lugar,
pois se você não viu, já passou da época
é, você tá passado de época
Você tá passado em mim
Não sei o que me deu, que é que se deu, 
que hoje eu não tô afim
Vá homem, 
que hoje tô com o coração cheio, 
o cabelo acordou brigado comigo e logo vou aproveitar,
hoje o meu samba é pra que você se vá
E vá...
E vá..
Você e sua tortura em outro lugar
Não mais do lado de cá

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Meu nome não é José


Um dia José foi embora. Não deixou bilhete de adeus nem nada, apesar de saber da beleza triste que o adeus tem. José saiu. Saiu de casa, dos antigos amigos, dos seus medos, da antiga vidinha medíocre que ele havia levado até então. Ele apenas cansou-se de ser José você me entende? Ele começou a pensar "Que porra de nome é esse que me deram? Eu não me sinto como José, quero inventar meu próprio nome". Esses pensamentos começaram a consumi-lo, ele ficava pensando em Roberto, ou em um nome composto talvez, ele sempre achara tão chique nomes compostos. Em seu trabalho ficava cantarolando e dançando músicas que jamais havia escutado. Na igreja enquanto todos clamavam e pediam e pediam, José travava uma luta interna, como se brigasse contra alguma coisa, como se não entendesse bem como deveria comportar-se ali. Sentia um nó no peito inexplicável a todos os instantes. Em todos os lugares José sentia desejos estranhos, que ele não podia identificar bem, mas sentia que deveria disfarçá-los. As vezes ele saía a noite e via umas cores no céu, rosa, lilás, azul, noutras era tão escuro que nem ele se via. Depois ele voltava ao normal. Depois sua vida voltava as mesmas cores cinzas. Quando estava só, subia em cima do telhado de sua casa e por muitas vezes sentiu-se o Rei do mundo. José nunca conseguiu explicar essa sensação. Quem sabe ele realmente era. Seus pensamentos começaram a ficar mais intensos, arrogantes e mal-educados, eles não escolhiam mais lugar para aparecerem. Não importava onde ele estava nem com quem, sua cabeça não o deixava em paz. Quase sempre cheia de "por quês", o que estava fazendo ali, se o que ele sentia era o "para sempre" ou se toda sua vida era só um sonho. José achou que estava louco, ficou triste, revoltado, sempre fizera tudo que lhe pediam, ia a igreja comungar, tinha um trabalho que lhe ocupava o dia, uma namorada que ia casar, pensou que era um tipo de doença ou sarcasmo de Deus, mas que mal ele haveria feito meu deus?, José assim pensara. Aquela luta de José com algo que ele não podia denominar estava lhe tomando tudo. Ele rasgou suas roupas, e passou 3 dias andando pelas ruas pra ver se sua angústia passava. Então começou a ver árvores, flores e o céu se movimentando e conversando com ele, e nessas horas sentia-se momentaneamente pleno. Não sentia fome, frio e nem medo, só algo queimando dentro dele. E para José como era difícil não ter um nome para pôr a culpa, para descarregar a dor, sabe como é? Ele estava cada vez mais lúcido. Sua namorada levou padre, pai de santo, pastor e o que mais fosse, chegaram a um veredicto: José estava com encosto. Nada o curou. As pessoas o viam nas ruas e pensavam: pobre rapaz, tão jovem, com uma vida inteira já pronta pela frente. Aí ele sentia mais dor. Será que ninguém nesse mundo ou em outro poderia o compreender? É meu amigo, você está sozinho nessa, talvez nem você nunca vá. José, José.. Nada mais lhe cabia, sem trabalho, sem mulher nem amigo. José começou a sentir-se pleno, como em raras vezes sentira, e apesar de não entender exatamente como, foi assim que decidiu ir embora. Pôs que pôs na cabeça que seu nome não era José, que havia sido um erro técnico, falha do cartório, e não tinha quem tirasse isso dele. Vestiu a roupa de um digno Rei do mundo, pois era assim que ele se sentira, e resolveu tomar posse de tudo que era seu. Saiu pra curar aquela dor terrível que o corroía por dentro. Decidiu que seria mais sensato deixar que as coisas que ele sentia se expressassem independente da forma que elas assumissem. Resolveu uma vez na vida ser bom com ela. Buscaria aquela sensação de plenitude, e não usaria mais roupas se para isso fosse preciso. Descobriria o quanto se dura a eternidade, e o mais importante, arrumaria outro bendito nome pra ele. A que custo fosse. José queria ir até o fim dele mesmo. Ele levara a sério aquela história de Rei do mundo e de si mesmo. Depois de 28 anos finalmente José poderia se conhecer, crú, exposto, na carne viva. Começou tentando se livrar de velhas culpas, e de certas pessoas também. Achou por um minuto que se tentasse ser o melhor com ele mesmo, somente assim poderia sentir-se gente de novo. Vivo em vida. E pela primeira vez ele viveu, e de novo e de novo. Alguns dizem que ficou louco. Só sabe-se que ele nunca mais voltou. Sabe-se lá que nome tem agora.